No início da década de 1980 Marcel Bienfait publicou a
primeira versão de Fisiologia da Terapia Manual na
França. Traduzido, foi publicado no Brasil em 1988.
Aqui, assim como na França e na Itália, serviu como
base para o estudo teórico em numerosos seminários de
formação contínua em Terapia Manual para
fisioterapeutas, ministrados pelo próprio autor.
Anos de trocas entre professor e alunos levaram-no a
visualizar novos aspectos dessa teoria e aprimorar a
forma de transmiti-la. Era inevitável que este texto
básico fosse reescrito e aqui está ele, atualizado e
editado no mesmo formato e com a mesma qualidade dos
dois outros volumes do mesmo autor, já publicados pela
Summus - Os desequilíbrios estáticos e Bases
elementares - técnicas de terapia manual e de
osteopatia - com os quais forma uma trilogia.
Neste livro Marcel Bienfait desenvolve dois aspectos
fundamentais para a formação do fisioterapeuta: o
estudo do micromovimento e o estudo da função da
musculatura estática da dissociada da função da
musculatura dinâmica.
O Estudo do Micromovimento
O micromovimento é possível em todas as
articulações graças à elasticidade da cápusla e
ligamentos articulares. Ela permite um "jogo" entre as
duas peças ósseas dentro da articulação. Algumas
articulações só têm micromovimentos. São aquelas que
precisam combinar mobilidade e estabilidade, como a
maioria das articulações dos pés; ou aquelas que
também necessitam proteger órgãos nobres como as
articulações da coluna vertebral.
Outras, de movimentos amplos, necessitam do
micromovimento para a adaptação entre as superfícies
articulares.
Além de serem condicionados pela elasticidade
ligamentar e articular, os micromovimentos o são pela
forma das superfícies articulares. Para entendê-los,
diagnosticar possíveis bloqueios e estudar técnicas
para liberá-los é necessário atento estudo da anatomia
e fisiologia articulares. Este é o primeiro aspecto
desenvolvido neste livro, o que desperta o
fisioterapeuta para a necessidade do estudo da
osteopatia. Esta é a técnica por excelência da
reabilitação do micromovimento.
A Função da Musculatura Estática e a Função da
Musculatura Dinâmica
A fisiologia descreve dois tipos de fibras musculares:
a estática, de contração lenta e permanente, destinada
ao controle postural, e a dinâmica, de contração
rápida e intermitente, destinada ao movimento
propriamente dito.
Para os anatomistas, que em princípio se preocupam com
a forma, a função dos músculos é sempre a do
movimento.
Assim, apesar de encontrarmos em todos os livros de
fisiologia muscular o clássico exemplo do tríceps
sural dividido em sóleo, de fibras lentas, estáticas,
e gastrocnêmio, de fibras rápidas, dinâmicas, nenhum
livro de anatomia atribui a eles funções diferentes.
Para todos são os três flexores plantares do pé.
Os grandes compêndios de anatomia para a área médica
são, em geral, escritos por médicos. Essa
diferenciação é importante para o fisioterapeuta. Por
isso creio que a ele caberá generalizar para toda a
musculatura a pesquisa que a fisiologia realiza com o
tríceps sural há décadas, mapeando o corpo humano e
propondo a partir daí uma nova cinesiologia, na qual
dinâmico é responsável pelo movimento, estático impede
o movimento ou o controla sempre que impedir não for
possível.
O estudo da função estática e dinâmica diferenciada
proposto neste livro por Marcel Bienfait é de sua
própria responsabilidade. Foi realizado mediante a
observação da forma do músculo, a experiência com
reabilitação de pacientes portadores de seqüelas de
poliomielite e o bom senso. Por exemplo: no caso do
tríceps, se ao sóleo cabe papel estático, este só pode
ser de controle da perna na posição ortostática,
impedindo-a de cair para a frente. Ao gastrocnêmio, de
fibras mais longas e menos tônicas, cabe a flexão
plantar intermitente para o impulso da marcha.
Esse tipo de raciocínio Marcel Bienfait propõe para os
principais grupos musculares de cada região do corpo,
observando a forma de suas fibras, seu posicionamento
e, a partir daí, atribuindo a cada músculo, ou porção
muscular, função dinâmica ou estática.
É possível que muitas de suas hipóteses não sejam
exatas, mas juntas formam um painel rico em sugestões
para pesquisa. É um maravilhoso legado para a novas
gerações de fisioterapeutas pesquisadores em
fisiologia que, quem sabe, daqui poderão reescrever
muitos capítulos da cinesiologia clássica.