Classicamente, os osteopatas, médicos que tratam de normalizar a
relação entre as peças ósseas, empregavam manobras para relaxar
a musculatura em torno das articulações que deviam tratar para
atingir seus objetivos.
Estas manobras são realizadas de forma precisa, têm determinadas
características e acabam por obter, entre outras coisas,
relaxamento da musculatura estática.
Marcel Bienfait recuperou esse procedimento para utilização em
fisioterapia, sistematizando e classificando as diferentes
manobras que até então eram transmitidas de uma geração à outra
de profissionais osteopatas apenas de forma prática.
O termo Pompage passou do inglês ao francês e ao português, sem
tentativa de tradução em nenhuma dessas passagens. Devemos
associá-lo a um gesto de "bombeamento", um puxar-relaxar
sucessivos.
Esse gesto deve ser realizado em três tempos:
1. Tensionamento do segmento, o que deve ser feito até o
limite da elasticidade fisiológica da estrutura
musculoaponeurótica. Se esse tensionamento ultrapassá-la, haverá
reação através de um reflexo miotático direto.
O terapeuta deve alongar lenta, regular e progressivamente as
fibras até o limite de sua elasticidade, para não se provocar um
descarregamento dos informantes do alongamento do músculo, que
são os fusos. Tudo deve ser realizado "em silêncio". O
terapeuta deve sentir-se um ladrão que está roubando comprimento
do músculo e não deve ser descoberto pelos vigias. Esta é
uma imagem que deve realmente ser levada a sério. A pompage é
uma manobra tão simples e tão leve que é muito difícil
executá-la convenientemente. O fisioterapeuta acaba quase sempre
por ser excessivo, não acreditando que aquele "quase nada" é o
primeiro passo para a obtenção de um efeito extraordinário de
movimento, sob a ação de uma força de mesma intensidade, e assim
por diante.
2. Manutenção do tensionamento, que será maior ou menor
de acordo com o objetivo que se procura.
3. Retorno à posição inicial, que ocorrerá lentamente e
cuja velocidade também será determinada de acordo com o objetivo
perseguido.
4. A manobra deve ser repetida de 5 a 10 vezes.
Objetivos da pompage
1. Relaxamento muscular
Nos casos de contratura e retrações, quando as moléculas de
actina e miosina interpenetram-se excessivamente, há diminuição
do comprimento muscular, no que são seguidas pelos elementos
conjuntivos do músculo. A pompage, realizada no sentido das
fibras musculares, promove um deslizamento dessas moléculas em
sentido contrário e aumenta o comprimento total do músculo.
– Em um primeiro tempo, lenta, regular e progressivamente a
estrutura muscular é tensionada até onde o permitir, para não
haver reflexo miotático direto. A forma de proceder nesse
primeiro tempo é a mesma, seja qual for o tipo de pompage que se
realize.
– Em um segundo tempo, a tensão obtida deve ser mantida. Esse é
o tempo principal da pompage muscular. Já vimos, ao estudar as
propriedades do músculo, que o alongamento da estrutura
musculoaponeurótica ocorria graças à elasticidade dos elementos
conjuntivos e também ao escorregamento excêntrico dos filamentos
de actina entre os de miosina, e esses são fenômenos lentos.
Manter a tensão é, por isso, fundamental.
– O terceiro tempo é o tempo de retorno, que deve ser lento, uma
vez mais, para não provocar um reflexo contrátil do músculo.
Este tipo de pompage pode ser realizado isolada ou
segmentarmente, preparando uma determinada região para a postura
poder instalar-se; ou pode ser realizada no interior de uma
postura com objetivo corretor ainda mais direto e eficiente,
porque nesse momento a retração é combatida, sem que haja
compensações em outras regiões, através do relaxamento do
músculo em questão durante um tensionamento geral.
O tensionamento é mantido durante 20 a 30 segundos.
Retorno lento e cuidadoso.
Exemplo: Pompage de trapézio
Figura
24
O terapeuta prende a base do crânio com a mão do lado do músculo
a ser tratado. Com a outra mão, apóia o ombro. O tensionamento é obtido
afastando-se as duas mãos lenta, regular e progressivamente até o limite
permitido pelo músculo.
2. Favorecimento da circulação
Os tecidos conjuntivos representam mais de 60% do conjunto dos
tecidos corporais. Neles estão incluídas as fáscias que envolvem
e estruturam a musculatura corporal. No âmbito desses tecidos,
ocorre a circulação de água livre, não canalizada, responsável
pelas trocas vitais de aporte de elementos nutritivos e retirada
de toxinas.
Se uma retração muscular, uma cicatriz, um edema provocarem uma
estase, haverá ausência de mobilidade entre as fáscias, e a
circulação de água livre, denominada lacunar, não ocorre
eficientemente, porque depende da mobilidade entre os tecidos,
visto não haver uma bomba a ela destinada. Neste caso, a pompage
deve ser realizada com o objetivo de liberar os bloqueios e
promover a circulação lacunar.
- Neste caso, o primeiro tempo é sempre de tensionamento
cuidadoso.
- O segundo tempo, de manutenção da tensão, pode ser breve.
- O terceiro tempo, de retorno, deve ser lento e o mais longo
possível. Volta-se como se não se quisesse voltar, resistindo-se
à elasticidade musculoaponeurótica que "puxa" a coxa para a
posição inicial.
Exemplo: Pompage do psoas (Fig. 25).
O psoas é um grande músculo situado entre a cavidade abdominal e
o membro inferior. Sua grande aponeurose é com freqüência
veículo de drenagem em estados inflamatórios gerais ou
localizados na região abdominal, o que torna o músculo dolorido,
estado denominado psoíte.
Neste caso, uma pompage circulatória favoreceria a aceleração do
processo de drenagem.
Figura 25
Paciente em decúbito dorsal, membro superior oposto ao músculo
a ser tratado, acima da cabeça, no prolongamento do corpo. Membro inferior
do músculo a ser tratado fletido, em rotação externa e a planta do pé
apoiada sobre a panturrilha oposta.
O terapeuta passa o braço sob a coxa, apoiando-a contra seu quadril.
O tensionamento é obtido com uma leve inclinação do corpo do terapeuta
para trás.
3. Regeneração articular
Na região de uma dada articulação, podemos aplicar um
tensionamento com o objetivo de separar duas superfícies
articulares, descomprimindo a articulação, provocando a entrada
de mais líquido sinovial, o que representa mais nutrição para o
tecido cartilaginoso que depende exclusivamente do aporte deste
líquido para sua nutrição. Esse procedimento pode ser útil em
casos de artroses degenerativas. Não é capaz de recuperar os
desgastes já produzidos mas pode retardar a evolução da
degeneração.
– Primeiro tempo - Instalação do tensionamento lenta, regular e
progressivamente.
– Segundo tempo - É o tempo principal deste tipo de pompage. O
tensionamento deve ser mantido longamente, para que o aporte de
líquido sinovial ocorra durante um longo período e a nutrição do
tecido articular seja o mais eficiente possível.
– Terceiro tempo - Retorno lento, o suficiente para que não haja
sensação de desconforto.
Exemplo: Pompage do quadril.
A articulação coxofemural é com freqüência sede de processos de
artrose. Em seus estágios iniciais, uma pompage articular
beneficia a nutrição da cartilagem e pode retardar a evolução do
processo patológico.
Figura 26
Pompage de Quadril
Paciente em decúbito lateral sobre o lado oposto do quadril a ser tratado.
Uma almofada firme é colocada entre as coxas.
O terapeuta apóia uma das mãos sobre o ilíaco e a outra sobre a região
externa do joelho. A descompressão é obtida empurrando-se o joelho para
baixo.
A manutenção do segundo tempo, o da descompressão, é a fase mais importante
e a que deve ser mais longamente mantida.