O texto que se segue é o baseado no livro A Biomecânica
da Coordenação Motora (ver página Livros). Trata-se de
uma releitura mais pedagógica e sistematizada da
Coordenação Motora, de Piret e Béziers.
Unidade de Coordenação é um segmento corporal constituído
por dois elementos rotatórios capazes de girarem
simultaneamente em sentidos opostos graças à contração de
um músculo poli-articular denominado condutor, realizando
uma torção que cria uma tensão capaz de manifestar-se em
uma articulação situada entre os dois elementos rotatórios
sob forma de flexão.
Em outras palavras, toda flexão é fruto de duas rotações,
que ocorrem em sentidos opostos de um lado e outro da
articulação que se move.
Este segmento é capaz de um movimento reconhecível como
humano, porque é um movimento fluido, continuo, sem
interrupções bruscas, um compromisso entre vários
movimentos. O movimento humano não é aquele descrito pelos
livros de anatomia ou cinesiologia tradicional com um
segmento movendo-se em um único plano em torno de um eixo
situado em um plano perpendicular ao do movimento,
descrito um a um. A unidade de coordenação envolve várias
articulações e vários pequenos movimentos concomitantes ao
movimento básico.
A unidade de coordenação braço
A porção longa do bíceps parte da região superior da
glenóide. Não se insere sobre o úmero, dirige-se para
fora, encaixa-se na goteira bicipital e desce para o
antebraço. Distalmente insere-se na região póstero-interna
do rádio.
Ao se contrair, este músculo traciona o membro superior
para fora, porque vai de uma região medial, glenóide, para
uma lateral, goteira bicipital; para frente, porque é um
músculo anterior e para dentro porque, ao contrair-se,
apoia fortemente contra a tuberosidade interna da goteira
bicipital, rodando o osso internamente. Ao mesmo tempo
flete o cotovelo e gira o antebraço e mão para fora em
supinação.
O bíceps longo não é capaz de realizar sozinho todo este
movimento, mas é o único capaz de fazer tudo isto
concomitantemente com a ajuda de músculos mono articulares
que reforçam o movimento, contraindo-se na fase para a
qual é mais adequado.
Assim, este músculo poli-articular é como um maestro,
conhecedor e capaz de executar cada porção de uma sinfonia
e que a conduz solicitando a entrada de cada instrumento
mono articular no momento preciso.
O úmero realiza um movimento que é uma composição de
flexão, abdução, rotação interna, enquanto o antebraço
realiza flexão e rotação externa - isto cria um estado de
tensão exatamente como quando uma peça de roupa é torcida
girando-se uma extremidade para cada lado. Em um dado
momento, a peça torcida se dobra. O cotovelo é a estrutura
situada no centro do segmento para que ele se dobre sempre
no mesmo local. A porção longa do bíceps é o músculo que
"conduz" a ação, por isso é denominado músculo condutor.
Podemos generalizar este conceito dizendo que:
Dois elementos rotatórios - cabeça umeral e punho-mão,
opõem suas rotações - interna no úmero, externa na mão,
graças a um músculo poli-articular dito "músculo condutor"
- bíceps longo,
criando um estado de tensão que se manifesta em uma
articulação intermediária - o cotovelo,
cujo movimento principal é a flexo-extensão.
Todo o corpo pode ser subdividido em segmentos que são
unidades de coordenação:
Unidade de coordenação – Braço
Unidade de coordenação – Escápula
Unidade de coordenação – Mão
Unidade de coordenação – Perna
Unidade de coordenação – Ilíaco
Unidade de coordenação – Pé
Unidade de coordenação – Tronco
Para cada uma destas unidades podemos descrever
– dois elementos esféricos rotatórios
– um elemento intermediário de flexo-extensão
– um sistema muscular condutor
– um movimento básico, característico da unidade de
coordenação.
Cada unidade de coordenação une-se à unidade vizinha
através de encaixe de elementos côncavos e convexos unidos
por músculos mono articulares. Assim, o movimento de uma
unidade é indissociável daquele da unidade vizinha.
O músculo condutor é aquele capaz de realizar o movimento
da unidade de coordenação a partir do precedente e
transmiti-lo para o segmento seguinte.
Mas se assim for, de onde vem o primeiro movimento e para
onde vai? Qual o movimento de origem?
Unidades transicionais e unidades de enrolamento
Conforme já definido, Unidade de Coordenação é o segmento
corporal que contém dois elementos rotatórios capazes de
opor suas rotações graças à contração de um músculo
condutor, o que cria um estado de tensão que acaba por
manifestar-se sob forma de flexão em uma articulação
intermediária.
Existem unidades que efetivamente só podem tensionar-se
desta forma, através de duas rotações opostas dos
elementos rotatórios. Outras conseguem também tensionar-se
por enrolamento, isto é, pela aproximação dos dois
elementos rotatórios.
Por exemplo: na unidade de coordenação tronco (veja a
ilustração)
os dois elementos rotatórios: a abóboda pélvica, para cima
e a abóboda esfenoidiana, para baixo podem girar para
lados opostos, o que faz com que todo o tronco tensione-se
fletindo-se ligeiramente pela somatória de pequenos
movimentos ao longo das articulações vertebrais
interapofisárias. No entanto, estes dois elementos podem
também aproximar-se um do outro, tensionando esta mesma
estrutura pelo enrolamento, que também é uma flexão.
As unidades que têm a possibilidade de tensionar-se por
torção, ou oposição das rotações, e também por enrolamento
são denominadas unidades de enrolamento. Aquelas que só
tensionam-se por torção denominam-se unidades
transicionais.
As unidades transicionais têm a função de transmitir
movimento. As unidades de enrolamento têm a função de
originar ou recepcionar movimento.
Unidades de enrolamento são: tronco, mãos e pés.
Unidades transicionais são: escápula, braço, ilíaco e
perna.
Assim, do tronco partem movimentos que têm o objetivo de
chegar às mãos, para a função de preensão, passando pela
escápula e braço; ou aos pés, para a função de locomoção,
passando pelo ilíaco e perna. As unidades de origem e
recepção dos movimentos são as de enrolamento. As unidades
intermediárias são transicionais, com função de transmitir
o movimento.
No tronco, o músculo condutor capaz de tensioná-lo por
enrolamento não é um músculo, mas um sistema muscular - o
sistema reto. O músculo capaz de tensioná-lo por torção,
também é um sistema muscular - o sistema cruzado.
O
aprofundamento desses conceitos, conhecendo cada uma dessas
unidades de coordenação, de que forma o movimento ocorre em cada
uma, obtemos um vastíssimo material para a construção do
movimento ideal, coordenado, econômico. Formas de realizar
movimentos fluem a partir desse trabalho original. Ele serve
para analisar e sistematizar movimentos propostos por técnicas
de dança, esporte, ginástica.
Referência Bibliográfica:
Biomecânica da Coordenação Motora
de Angela Santos,
Summus editorial seg ed, 2002