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Importância do Trabalho Pilates Solo no Tratamento das Afecções da Coluna Lombar

Angela Santos

 
 

Quando falamos em afecções da coluna lombar podemos estar frente a problemas de ordem ortopédica ou de ordem postural.

De ordem ortopédica podemos citar como exemplo:

Hérnias discais — que pressupõe degeneração prévia dos discos

Listeses — más formações, traumas, processos degenerativos ou anomalias congênitas

Artroses — envelhecimento, mau e excessivo uso do próprio corpo...

Associação à síndromes do piriforme — onde pode haver uma passagem anômala da raiz sacra pelo corpo do músculo, como reza a definição.

De ordem postural:

Retração do piriforme: causada por muito treino muscular da região glútea em exercícios concêntricos sem alongamentos compensatórios, com freqüência associa-se a lombalgias, levando a sintomas de dor local ou com irradiação incompleta pelo trajeto da raiz nervosa.

Espasmo muscular por má postura longamente mantida

Desvio postural da região devido a predominância funcional (atletas, trabalhadores...)

Tanto em um caso quanto em outro sempre haverá grupos musculares retraídos fixando determinados desvios posturais, o que não se trata com “ginástica”. Isso requer fisioterapia.

 
Diagnóstico ortopédico
 

O conhecimento dos sinais clínicos que levam ao diagnóstico da patologia, com freqüência é suficiente para o fechamento do diagnóstico.

A compreensão da fisiopatologia do problema permite ao fisioterapeuta escolher e aplicar de maneira segura o procedimento fisioterápico ideal.

 
Diagnóstico postural
 

Mesmo quando o diagnóstico ortopédico é conhecido, estabelecer o diagnóstico clínico do desvio postural é essencial.

Todos os problemas citados levam a alterações posturais que devem ser determinadas por comparação entre pontos ósseos, fixos.

Dessa forma é possível:

— assegurar-se da existência do desvio,
— avaliar-se a evolução do paciente,
— determinar-se qual grupo muscular encontra-se retraído e que, portanto, deve ser tratado de forma específica.

 

Exemplo: No plano sagital a posição pélvica poderá informar sobre a posição correspondente da lombar. Se determinarmos clinicamente que a pelve encontra-se em anteversão, a lombar encontra-se em hiperlordose. Se a pelve encontra-se em retroversão, a lombar encontra-se com a lordose diminuída.

 
Equilíbrio Sagital Pélvico
 

Dizemos que a pelve encontra-se em equilíbrio quando a espinha ilíaca ântero-superior encontra-se na mesma horizontal que o ponto localizado dois dedos do cliente abaixo e sua espinha ilíaca póstero-superior (o cliente coloca três dedos abaixo do dedo do terapeuta que indica o ponto de EIPS e o terapeuta marca o ponto frente ao terceiro dedo). Se a EIAS estiver mais caudal que o ponto posterior, pelve em anteversão e lordose lombar aumentada. Se a EIAS estiver mais cefálica, pelve em retroversão e lordose lombar diminuída.

A imagem a seguir sugere uma aparente hiperlordose

 

Veja como se comportam os dois pontos citados como parâmetros para determinação de um bom equilíbrio sagital pélvico:

Quase se encontram na mesma horizontal.

 

Consultando o Raio X feito em posição ortostática de perfil, constatou-se um ângulo sacral de 35º, portanto dentro da normalidade.

Conclusão, essa criança não apresenta hiperlordose. Não deve ser tratada como se assim fosse.

No entanto, supondo-se que ela apresentasse anteversão pélvica com conseqüente hiperlordose, saberíamos que os grupos musculares possivelmente retraídos seriam:
— iliopsoas
— adutores pubianos
— paravertebrais

Se apresentasse retroversão pélvica com conseqüente diminuição da lordose lombar, os grupos musculares possívelmente retraídos seriam:
— glúteo maior profundo
— pelvitrocanterianos (especialmente piriformes)
— isquiotibiais

 

O DIAGNÓSTICO ORTOPÉDICO
Indica ao fisioterapeuta os procedimentos mais indicados e aquilo que deve ser evitado

O DIAGNÓSTICO CLÍNICO POSTURAL
Indica os grupos musculares retraídos cuja flexibilidade deve ser reabilitada através da Fisioterapia Estática.

 

A partir desse momento o processo de reabilitação pode ser iniciado.

Ele divide-se em tres partes:
   ◊ Fisioterapia estática
   ◊ Entendimento do próprio problema
   ◊ Cuidados posturais a serem mantidos diariamente

 
Fisioterapia estática
 

Os grupos musculares retraídos devem ser tratados através de procedimentos específicos que denomino Fisioterapia Estática que amenizam a retração, alongam o músculo e,mais importante, alongam a cadeia muscular ao qual ele pertence e permite uma correção ou melhora do alinhamento postural.

(ver fisioterapia estática em www.centrodesaopaulo)

 

Aqui se incluem:
   ◊ Massagens profundas:
        □ do tecido conjuntivo
        □ Rolfing
   ◊ Pompages
   ◊ Procedimentos de contato
   ◊ Manobras corretivas
   ◊ Alongamento muscular em cadeia – posturamento

 

Entendimento do próprio problema

 

É absolutamente necessário que o cliente entenda seu problema, (em especial se ele for de origem ortopédica).

Em uma hérnia discal, por exemplo, ele deve entender o que o acomete e a partir daí entender porque para o resto da vida ele terá que tomar cuidados para não entrar em crise novamente.

Essa é uma discussão contínua e para isso devemos ter material de suporte para voltarmos ao assunto durante todo o tempo em que durar nosso contato com os clientes.

 
 
Cuidados posturais no dia a dia
 

Grosso modo esses cuidados podem ser os mesmos para todos, portadores ou não de hérnias lombares, porque podem impedir que o núcleo de um disco lesado se mova pra trás ou preservar os discos de alguém saudável. São essencialmente de três ordens:

   ◊ manter a curva lombar
   ◊ obter muita flexibilidade de cadeia posterior
   ◊ ser capaz de acionar toda a musculatura abdominal
   ◊ Manter a curva lombar (assim como as demais) ao longo de todas as atividades o maior tempo possível.

 

   ◊ Ter muita flexibilidade de cadeia posterior para que toda inclinação anterior ocorra em torno da coxo-femoral e não em torno da lombar em cifose.

 

   ◊ Ter capacidade de acionar a musculatura abdominal sempre que for realizar um movimento de inclinação anterior ou ao realizar qualquer esforço a partir dos membros, formando, frente a lombar, um balão abdominal protetor.

 

Ao acionar-se adequadamente a musculatura abdominal, especialmente o músculo transverso do abdome, a pressão intraperitoneal aumenta, formando um “balão fluido protetor” que protegeria a lombar ao inclinar-se para frente, impedindo que as vértebras fechem excessivamente na frente e abra atrás empurrando os núcleos pulposos, ou ao movimentar-se para as atividades da vida diária.

 
Balão abdominal utilizado nas atividades do dia a dia
 
 

Essa teoria era defendida por Boris Dolto desde os anos setenta.

Fisioterapeuta russo, Dolto trabalhou em Paris e publicou nos anos setenta Le corps entre les mains, onde desenvolve várias idéias originais sobre os procedimentos de reabilitação por ele praticados.

Isso inspirou muitos fisioterapeutas em seus procedimentos de reabilitação.

Nos últimos anos esse procedimento, conhecido por estabilização segmentar, tem sido exaustivamente estudado e defendido por toda uma escola australiana de profissionais, entre os quais se destaca Paul Hodges.

 

Controle da musculatura abdominal: porta de entrada do Pilates na fisioterapia

 

Após submeter-se à fisioterapia estática e entender o próprio problema, o paciente deve obter o controle abdominal e exercer sua flexibilidade nas atividades do dia a dia.

Para tanto precisa passar a um estágio do trabalho que não mais se prende ao trabalho estático. É necessário novo aprendizado do movimento, nova forma de posicionar-se e movimentar-se utilizando essa nova capacidade que é o acionamento voluntário de toda a musculatura abdominal (com ênfase para o transverso que de todos os abdominais é o menos utilizado de forma voluntária).

Esse é um desafio suplementar para o fisioterapeuta que normalmente é um profissional que não tem o hábito de exercitar-se, que não tem em sua formação ênfase em matérias de condicionamento e ginástica (mais ligadas à educação física).

Esse vazio pode ser preenchido pelo método Pilates.

É nesse ponto do trabalho de reabilitação que se pode começar falar sobre a importância do trabalho Pilates ( mais especificamente Pilates no solo), de forma específica para o tema (afecções da coluna vertebral), o que permitirá também situá-lo dentro da própria Fisioterapia.

 
Características do método Pilates
 

   ◊ Concentração
É essencial a conexão entre corpo e mente. Deve-se prestar atenção a cada movimento realizado.

   ◊ Controle
O nome original do trabalho, durante a vida de seu criador era Contrologia.
Tudo se constrói em torno da idéia de controle muscular do movimento que sempre engloba todo o corpo.

   ◊ Precisão
Cada movimento tem um propósito, cada detalhe devidamente instruído é importante para o todo

   ◊ Controle do centro
De modo geral, ao trabalharem-se abdominais estamos atentos ao centro, mas quando o objetivo é trabalhar com membros, a âncora central é esquecida. No entanto Pilates lembra que aí se situa o ponto a partir do qual todo movimento deve ser construído. O movimento flui do centro para a periferia.

   ◊ Controle respiratório
Muito se pode dizer a respeito, mas é fundamental lembrar que para os abdominais estarem acionados todo o tempo do movimento deve-se aprender expirar contraindo-se todos os abdominais, o que é relativamente fácil, mas também inspirar mantendo-os contraídos, o que é muito mais complicado.

   ◊ Fluidez
Existe a intenção de organizarem-se os exercícios de forma que a posição final de um seja a posição inicial do seguinte. O método original (Vide descrição do trabalho em O Corpo Pilates de Brooke Siler) já organiza os exercícios dessa forma. Mas a realidade do dia a dia mostra que essas seqüências só são possíveis após o aprendizado cuidadoso de cada movimento, que deve ser adaptado às dificuldades de cada um.

   ◊ Imagens mentais
Se eu disser erga a cabeça, podemos fazê-lo de muitas formas diferentes, mas se eu disser deixe a cabeça subir para o teto como um balão de gás livre, leve e solto, o movimento será muito mais natural e fácil.

 

De todas essas características as que parecem mais exclusivas do método são:
        □ o controle do centro
        □ o controle respiratório

 

Se não, vejamos:

O que faz um movimento ser movimento Pilates?

O que faz um movimento qualquer ser Pilates é o fato do centro estar estabilizado enquanto o movimento se realiza. Para tanto os abdominais devem estar acionados durante a expiração e a inspiração.

 

Inspirar e expirar mantendo a musculatura abdominal acionada faz desse simples movimento de círculos de membros inferiores um movimento Pilates

 

Pilates leva essa idéia de acionar o centro para que se faça qualquer movimento às ultimas conseqüências. Isso produz dois efeitos:

   ◊ O fortalecimento da musculatura abdominal ocorre de forma muito intensa visto que ela é trabalhada o tempo todo, não apenas quando ela é o alvo.

   ◊ Aprende-se a utilizá-la de forma automática, sempre que um movimento é desencadeado em qualquer parte do corpo.

 

Pilates no solo

 

Dentro do método Pilates, onde situamos o trabalho no solo?

O método Pilates foi desenvolvido no início do séc. XX por Joseph Pilates.

Durante a I Guerra Mundial foi feito prisioneiro e conta-se que continuou praticando seus exercícios e ensinando-os aos companheiros de prisão. No final da guerra foi ajudante em um hospital na Ilha de Mann na Escócia onde começou trabalhar com pacientes impedidos de andar. Assim, teve a idéia de utilizar as molas das camas para ajudar na movimentação dos membros com dificuldade de movimento. Observou-se que esses pacientes recuperavam-se mais eficientemente. Esses exercícios com molas foram a base para os aparelhos Pilates posteriormente desenvolvidos para serem utilizados juntamente com os exercícios de solo. Por essa razão, o nome Pilates é com freqüência associado a máquinas, mas os exercícios de solo constituem o sistema original de movimento idealizado por ele e é tão efetivo quanto o realizado com máquinas.

A vantagem é que eles podem ser realizados em qualquer lugar, com um investimento evidentemente muito menor e, podem ligar-se à cadeia de procedimentos terapêuticos na reabilitação músculo-esquelética.

 

Sistematização de trabalho de todos os grupos musculares com possibilidade de ampla escolha de movimentos

 

A gama de movimentos Pilates contempla todos os grupos musculares do corpo, sempre trabalhando ancorados no centro, denominado “casa de força”. Assim, em todos os momentos, todo o corpo acaba por estar envolvido no trabalho corporal.

Para cada grupo muscular descreve-se uma série de diferentes possibilidades de movimentos, o que permite, conhecendo o diagnóstico ortopédico e postural do cliente, escolher movimentos que sejam mais indicados, evitando os perigosos.

Por exemplo, na hérnia discal devemos evitar enrolamentos. Apesar do roll up ser um exercício da série básica podemos deixá-lo de lado e ainda assim ter várias opções de trabalho abdominal muito vigoroso sem enrolar. A quantidade de movimentos cujo alvo é a musculatura abdominal é imensa.

 

ROLL UP

 
 
Opções de substituição ao roll up
 

ONE LEG CIRCLE

 
 

SINGLE LEG STRETCH

 
 

NECK PULL MODIFICADO
(avançados)

 

 
 

Há também a possibilidade de se decompor o movimento até atingir-se o ideal.

Essa é a forma final do movimento One leg circle

 

One leg circle

 
 

Que pode ser atingido por etapas:

 

One leg circle — modificações

 

 

O método também inclui movimentos em alongamentos, essenciais para o reequilíbrio do tônus muscular dos músculos antagonistas e a manutenção de uma boa postura.

Pilates solo é a conclusão de um processo de reabilitação postural. É uma forma de trabalhar o corpo todo fortalecendo-o e mantendo sua flexibilidade com segurança.

 
 
 
 
 

 

 

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