Essa pequena conferência baseia-se no livro
A Escoliose – seu estudo tridimensional de René Perdriolle.
Traduzido e publicado pela Organização Andrei Editora Ltda em
1985.
Mal
difundida, essa edição foi recuperada por Celso Luís Dias em 2002.
Com uma errata feita por ele, esse livro tem sido desde então,
comercializado pelo NEPE.
Ao
longo de 2003 tentei, através de contato intermediado pelo colega
francês Michel Daegencourt do GKTS, trazer para o Brasil o Sr.
Perdriolle para um seminário de estudo de seu livro. Após um
período de reflexão ele recusou. Foi então que me propus estudar
com atenção esse trabalho tão complexo quanto interessante e por
ocasião desse segundo congresso brasileiro de fisioterapia da
escoliose, transmitir aquilo que conseguisse apreender com esse
estudo.
DEFINIÇÃO
Escoliose é uma deformidade ântero-posterior em lordose, causada
por um movimento de torção de todo o segmento raquidiano.
Essa deformidade se expressa lateralmente.
Trata-se de uma curva reversa.
Curva reversa
O
texto original francês fala em "courbe gauche". Em sua errata
Celso propõe que no lugar de "curva esquerda", que não faz sentido
algum, substituamos por "curva estranha, bizarra", outro sentido
para o mesmo termo, que nos aproxima do que o autor certamente
quis dizer.
No entanto, na página 77 da versão em português, encontramos a
explicação para o termo.
Examinando uma peça anatômica de uma coluna escoliótica, o autor
diz que tentou colocar uma superfície plana tangencialmente à
superfície lateral de duas vértebras consecutivas ao longo de toda
coluna. Com exceção do bloco neutro superior dorsal, ele diz não
ter sido possível encontrar duas vértebras pertencendo a um mesmo
plano, quer seja no plano frontal, sagital ou intermediário.
Assim, conclui:
"Não
é uma curva plana. Essas constatações demonstram que a coluna
escoliótica descreve uma curva que se desenvolve no espaço. É
portanto uma curva gauche".
Ora,
existe em matemática um termo adequado para essa imagem: curva
reversa.
Segundo a Enciclopédia Larousse, reversa é a linha ou curva, que
não está contida em um único plano no espaço, o que me parece
definir com precisão a forma de uma coluna escoliótica que esse
estudo propõe.
Deformidade ântero-posterior em lordose
Graças a radiografias realizadas em incidências seletivas
dos planos sagitais das vértebras e não do plano sagital
do corpo, o autor evidenciou que:
As vértebras encontram-se em extensão umas em relação
às outras de D3 até S1.
Isolando-se apenas esse componente podemos dizer que a
coluna descreve uma curva única de concavidade
posterior.
Essas constatações foram feitas tanto nas curvas
principais quanto nas concomitantes ou secundárias.
Tal fenômeno, de acordo com o ângulo da curva, causa
sucessivamente: dorso cavo, plano e cifótico.
Assim, quando aparece a cifo-escoliose ela é
considerada paradoxal.
A relação entre ângulo da curva dorsal e forma do
dorso é aproximadamente:
Menos de 50º – dorso cavo
Entre 50º e 80º – dorso plano
Maior que 80º – cifose paradoxal
Conseqüência terapêutica
Deve-se, portanto, combater o agravamento do dorso cavo, em
lordose, que seria o mesmo que agravar a curva escoliótica.
Certos tratamentos podem agravar essa curva.
Coletes gessados, órteses, movimentos em fisioterapia, que agravem
o componente ântero-posterior, retificando ainda mais, devem ser
modificados.
Rotação-Torção
Um raio X frontal de uma criança escoliótica demonstra que
as vértebras não se encontram de frente, sofreram um
deslocamento. Normalmente esse deslocamento é considerado
uma rotação intervertebral no plano axial.
Como as vértebras realizam movimentos concomitantes nos
três planos do espaço, cada um destes movimentos não pode
ser avaliado em uma projeção plana de um volume de três
dimensões.
As radiografias frontais não podem dar uma imagem
respectiva de cada plano. Mas as radiografias denominadas
seletivas podem isolar o movimento unidirecional e
apreciá-lo.
Essas radiografias devem seguir alguns critérios:
Como mesmo duas vértebras sucessivas não estão em um
mesmo plano, essas radiografias devem ser segmentares
focando no máximo três corpos vertebrais.
Devem respeitar um eixo de acordo com a direção do
movimento a ser pesquisado.
Os elementos das vértebras estudadas devem estar
perpendiculares aos raios, a placa deve estar paralela
ao plano frontal ou sagital da vértebra estudada.
Assim, em um raio X frontal pode-se ver, por exemplo, uma rotação
lombar importante à esquerda e uma dorsal à direita. Se
realizarmos um raio X com a placa paralela à superfície da
gibosidade lombar e o raio perpendicular à placa eliminamos a
imagem de rotação lombar e vemos a rotação limitar-se às vértebras
dorsais. Se fizermos o mesmo com a gibosidade dorsal em geral
veremos desaparecer as rotações intervertebrais das vértebras
dorsais inferiores, e permanecer as rotações das vértebras dorsais
superiores.
Isso
é regra geral para as escolioses de curva principal dorsal. Essa
rotação intervertebral superior que, segundo o autor, limita-se às
vértebras T5, T6, T7, é por ele denominada rotação específica.
Rotação Específica
É visível em um raio X normal frontal, mas só pode ser
avaliada com rigor em uma incidência seletiva centrada
nas vértebras em questão.
Quando limita-se a duas vértebras não ultrapassa 10º.
Quando envolve três vértebras, pode variar de 5º a 45º
por articulação, isto é, de 10º a 90º.
Ocorre em mais de 98% das formas dorsais.
Não existe nas escolioses de etiologia conhecida.
Existe desde o aparecimento da curva escoliótica.
Seu potencial evolutivo é fraco. Observou-se um
aumento de 50% excepcionalmente. Dessa forma podemos
ter uma idéia do potencial evolutivo da deformidade
(de acordo com o número de vértebras envolvidas e o
número de graus)
Nas escolioses dorsais limita-se à vértebra limite
superior e sua sub ou supra-jacente.
Assim, essa rotação não é uma conseqüência. Poderia, então, ser a
origem do desequilíbrio raquidiano, que induz a uma torção
vertebral. Nessa região poderia situar-se a "moléstia escoliótica".
O autor considera que a rotação específica significa a escoliose
idiopática dorsal. Tais constatações podem orientar a pesquisa da
etiologia da escoliose idiopática, mas de forma alguma defini-la.
Torção
A rotação específica deveria girar todo o segmento acima
dela, tanto mais quanto maior sua amplitude. No entanto,
sua ação acarreta um fenômeno de reequilíbrio. Cabeça e
cintura escapular desempenham papel de "constante de
reequilíbrio", para conservar suas orientações
fisiológicas.
Normalmente se considera que o posicionamento dos olhos é
determinante, mas o autor não concorda, visto que
raramente a coluna cervical encontra-se desviada. Nesse
caso, o segmento que desempenharia o papel de
reequilibrador estaria abaixo da coluna cervical. E esse
segmento seria a cintura escapular.
A cintura pélvica desempenharia papel de ponto fixo.
Uma rotação específica da direita para a esquerda
provocaria uma escoliose de convexidade direita e uma
torção da esquerda para a direita.
A torção provoca:
Na coluna um desvio total antero-posterior em dorso
cavo que diminui a cifose fisiológica e aumenta a
lordose lombar.
Na articulação intervertebral um movimento de extensão
associado a uma lateroflexão geral que provoca um
aumento de pressão sobre o pilar articular da
concavidade.
A deformidade ântero-posterior devida à torção é projetada
lateralmente:
dá uma falsa impressão de desvio essencialmente
lateral,
provoca uma posteriorização das costelas da
convexidade criando a gibosidade.
Sob
efeito desta constante de reequilíbrio um movimento generalizado
se estende a toda coluna nos três planos.
Localização lombo-sacra:
Em
escolioses idiopáticas nas quais não existe rotação patológica no
bloco neutro, constatou-se em quase todos os casos uma má posição
de L5 sobre S1, às vezes de L4 sobre L5.
Em
um raio X clássico de frente, se vê uma inclinação de L5 sobre S1
com a impressão de uma anomalia do pilar articular do lado da
convexidade lombar.
Seria uma má posição ou má formação.
É
freqüente se constatar uma má formação (espondilolistese,
hemi-sacralização, hemi-lombarização...) através de exames mais
específicos (raios X em lordose corrigida de frente, perfil, 3/4,
tomografia...). Esses problemas podem causar uma rotação no plano
axial com conseqüências semelhantes às da rotação específica
dorsal.
Nos
casos em que exames complementares não esclareceram nenhuma
anomalia o autor sugere uma alteração de origem intraóssea.